Arquivo para Julho, 2008

O Colecionador de Selos

Postado em Uncategorized com as tags , , em Julho 13, 2008 por Pivni

Este texto eu escrevi em 2005, no inicio do ano, durante um encontro de biologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), logo depois de uma mesa redonda sobre conceito de espécie, foi o primeiro e acho que o maior nó que eu já dei na cabeça até hoje!! Ele foi originalment epublicado em: http://rodrigopivni.multiply.com/journal/item/4/O_COLECIONADOR_DE_SELOS na data de 19 de setembro de 2006, nessa época eu ainda não sabia se seguiria mais par ao lado da zoologia ou da ecologia, mas este “nó” ajudou muito a decidir.

===

Espécie … o que é espécie?
Qual o conceito de espécie?
Espécie existe?

Estas são questões que a cerca de um ano e meio, desde a mesa redonda lá do VII Encobio (UEFS), em janeiro de 2005, que contou com a presença do Rapini, do Freddy Bravo, ,,, não me lembro o nome do outro participante da mesa, taxonomistas, um de botânica, outro de zoologia e um outro de microbiologia, além da ilustre presença do sistemata que se diz taxonomista, se não me engano, Eduardo (não lembro o sobrenome), me perturbam … quando eu achei que entendi de alguma coisa e descobri que na verdade eu não sei de nada! O texto O COLECIONADOR DE SELOS não pretende responder a estas questões, até mesmo porque o autor (eu) acredita que responder a estas questões é algo no momento impossível, não existe uma resposta única, a não ser que se trata de uma hipótese ou conceito utilizado de forma distinta por taxonomistas, ecólogos, geneticistas (sistematas) e/ou até mesmo por jornalistas (estes costumam “avacalhar” ou “bagunçar” o código existente, muitas vezes criando novas categorias e/ou até mesmo organismos a revelia, porém, não intencionalmente e o grande culpado somos nós).

A conclusão que EU cheguei foi a de que Espécie não passa de um nome dado a um determinado organismo de forma a organiza-lo em um tipo de fichário, pasta, envelope, etc., como fazem os colecionadores de selos, cards, etc. ao organizar a sua coleção por países, cores, modelos, valores ou qualquer outra característica marcante, simplesmente e somente pelo fato de que uma vez organizado fica mais fácil saber QUAIS selos eu tenho e ONDE eles estão. Descobri também que a forma que EU organizo os meus selos deve ser igual à forma que um outro colecionador qualquer organiza os dele, de forma a facilitar uma comparação e/ou troca de selos repetidos … é como se fosse o ÁLBUM DE FIGURINHAS. Uma outra boa analogia é o sistema de armazenamento de arquivos do Windows®, em pastas, agrupadas por assuntos, etc. a nomenclatura não passaria, neste caso, do nome dado ao arquivo (que por sinal, também não pode ser repetido), e viva o Windows Explorer® (não confundir com o Internet Explorer®, eu estou falando o gerenciador de arquivos, não do Browser)! Os taxonomistas também tem os seus Windows Explorer® para administrar as suas “coleções de selos”, eu conheço dois programas (softwares) o Platypus® e o Taxis®, porém, não vem ao caso agora discutirmos estes softwares aqui, eles não passam de uma pasta ou álbum e no momento estamos discutindo (ou quem sabe até filosofando) sobre os selos, sobre COMO, não sobre ONDE armazena-los …

A Nomenclatura Zoológica
A partir daqui vou me referir a organismos como “animais” por estarem mais perto da minha realidade (objetos de estudo), porém, os mesmos conceitos também se aplicam as demais formas de vida (botânica e microbiológica), só que com regras e recomendações específicas.

Na zoologia, a taxonomia ou nomenclatura não passa de um sistema de nomes aplicados aos táxons animais e é regida pelo Código Nacional de Nomenclatura Zoológica (ICZN, 1985), um sistema complexo de regras e recomendações para compor os nomes zoológicos.

A força deste código está no fato de ser um documento adotado pela comunidade zoológica internacional, primeiramente representada pelos Congressos Internacionais de Zoologia, pela divisão de zoologia e pela Assembléia Geral da International Union of Biological Sciences.

Segundo o próprio Código, o objetivo do Código é “promover a estabilidade e a universalidade dos nomes científicos dos animais, e assegurar que o nome de cada táxon seja único e distinto”, ou seja, que cada táxon animal tenha um nome único, distinto, estável e universal.

Por estabilidade entende-se que o nome CORRETO de um táxon NÃO deve ser alterado injustificadamente; por universalidade, que o nome CORRETO é válido em qualquer parte; por unicidade, que é um só; por distinção que é distinto do de qualquer outro.

Quatro requisitos que são facilmente justificados levando-se em consideração que se este nome não tivesse estas característica comprometeria uma comunicação entre a comunidade científica internacional.

Para entender melhor ainda o significado da nomenclatura zoológica, é interessante examinarmos os conceitos de táxon e categoria (ou categoria taxonômica).

Estes são nomes de táxons: Animalia, Chordata, Vertebrata, Mammalia, Delphinidae, Stenella, Stenella clymene.

Estes são nomes de categorias: reino, filo, coorte, classe, ordem, família, gênero, espécie, etc.

Ou seja, um táxon é um determinado grupo de organismos. Uma categoria é um determinado nível hierárquico em que certos táxons são organizados/agrupados … classificados … (como se fossem abas do fichário, gavetas, envelopes, pastas, ou caixas do colecionador de selos)

A Bagunça
A nomenclatura zoológica não é a única forma conhecida de organização dos seres, a nomenclatura zoológica, batizada por TAXONOMIA (deve ser uma alusão aos táxons não? Claro que é!) é normalmente utilizada pelos taxonomistas, os ecólogos tem a sua própria forma de tratar esta taxonomia, aproveitam o nome de batismo da técnica mas não utilizam todos os conceitos e recomendações, podendo inclusive possuir recomendações próprias, fator que implica nesta grande variância e índice de sinonímia (mais de um nome a um mesmo organismo) até a definição do nome definitivo e a pasta em que o selo deve ser guardado/colecionado … como se não bastasse, os geneticistas inventaram um troço chamado filogenia … pronto, bagunçou tudo, a principio os ecólogos e taxonomistas devem ter imaginado esta nova técnico como uma forma e chegar a uma conclusão para definir qual dos dois tinha razão (essa é uma hipótese), porém, estes cientistas não imaginavam que todo o seu trabalho de organizar os seres vivos de acordo com caracteres morfológicos evolutivos não tinha a menor semelhança com os caracteres genéticos utilizados como fator de classificação (ou diferenciação) dos organismos … também conhecida por Sistemática Filogenética … a grosso (e põe grosso nisso) modo, seres antes determinados/classificados como primitivos ou menos evoluídos em relação a outros seres por não apresentarem adaptações ou aptações mais condizentes com os seus hábitos e habitats, através da filogenia mudaram de “pasta” e passaram a ser mais evoluídos que os mais aptos ou adaptados … eu não ficarei surpreso se os geneticistas “descobrirem” ou “chegarem a conclusão” que determinado organismo que eu conheço como uma determinada espécie, por exemplo uma formiga, é filogenéticamente mais próximo (parente mais próximo) de um sapo que de uma vespa e que esse sapo é mais próximo de um rato que de uma outra espécie de sapo que nem de longe é parente de um rato, mas sim de um peixe, e por aí vai, na nossa visão (pelo menos MINHA visão de taxonomista), uma GRANDE BAGUNÇA …

Acho que vale à pena transcrever parte de um tópico do Bernardi (1994) intitulado “A Nomenclatura e a Sistemática Filogenética” que começa dizendo que existem problemas conceituais e práticos quanto à aplicação das regras tradicionais de nomenclatura (taxonomia propriamente dita) a grupos monofiléticos, definidos de acordo com os cânones da Sistemática Filogenética. Embora escape do escopo do livro organizado pelo Papavero (Fundamentos Práticos de Taxonomia Zoológica), onde o artigo do Bernardi se encontra, tecer considerações sobre esta área, porém, demonstra claramente que existe uma grande confusão no que se refere a CONCEITO DE ESPÉCIE. Só vou avisar a todos, que o nosso problema até que é light (levando em conta que a maioria de vocês, pelo menos é o meu caso, trabalha ou pretende trabalhar com zoologia –animais-), se fosse a nomenclatura aplicada à botânica, a confusão parece ser maior ainda.

Bom jogo no ar (na rede) então estas três questões:
1) Espécie … o que é espécie?
2) Qual o conceito “correto” de espécie?
3) Espécie existe ou é apenas uma hipótese?

Referências Bibliográficas
Bernardi, N. 1994. 8. Nomenclatura Zoológica. In: Papavero, N. (Organizador). Fundamentos Práticos de Taxonomia Zoológica, Editora Unesp, Fapesp, São Paulo, 169-186.